Para problemas do continente: Nyusi defende soluções “Africanas”

O antigo Presidente da República, Filipe Nyusi, defende que os países africanos devem, antes de tudo, encontrar soluções africanas para os problemas africanos. Nyusi falava nesta quarta-feira, na Universidade Joaquim Chissano, durante uma palestra sobre a importância do multilateralismo e o papel de Moçambique no Conselho de Segurança das Nações Unidas.


Nyusi explicou que a procura de soluções africanas não significa rejeitar o apoio ou a solidariedade internacional, mas, sobretudo, privilegiar respostas locais para problemas locais. Segundo o antigo estadista, os países africanos devem assumir maior responsabilidade na resolução dos seus próprios conflitos antes de recorrerem ao apoio externo.


“Antes de tudo, soluções africanas para os problemas africanos”, sublinhou Nyusi, acrescentando que, em determinadas situações, é necessário recorrer ao apoio, à participação e à solidariedade de outros países, mas sempre procurando encontrar soluções que partam da realidade local.


Ao abordar a participação de Moçambique no Conselho de Segurança das Nações Unidas, Nyusi considerou que o País teve uma intervenção activa durante os dois anos do mandato como membro não-permanente daquele órgão.


Segundo explicou, Moçambique participou em diferentes iniciativas ligadas à paz e segurança internacionais, incluindo no Grupo de Trabalho Ad Hoc de Prevenção e Resolução de Conflitos em África e no Conselho de Paz e Segurança da União Africana.

Nyusi destacou igualmente a realização de encontros que resultaram em comunicados conjuntos sobre questões prioritárias de paz e segurança, considerando que Moçambique não se limitou a ocupar um lugar no Conselho de Segurança, mas procurou participar activamente nos debates e processos de decisão .

“Moçambique não entrou no jogo para ser apanha-bola. Foi para jogar e jogar para ganhar”, afirmou, defendendo que a presença do País naquele órgão deve ser entendida como uma oportunidade de projectar as suas prioridades e valores no cenário internacional.


Para Nyusi, a participação no Conselho de Segurança representa, para qualquer Estadomembro, uma das mais elevadas formas de materialização da política externa, por permitir contribuir directamente para debates e decisões sobre questões de paz e segurança internacionais. O antigo Presidente destacou ainda como um dos principais ganhos a possibilidade de Moçambique ter uma voz activa nas deliberações e resoluções do Conselho de Segurança.


“Quando Moçambique se levanta para falar, as pessoas param de escrever para ouvir o que vai dizer desta vez”, afirmou, sublinhando que a presença no órgão permitiu ao País ganhar maior visibilidade e afirmar a sua posição sobre questões regionais e internacionais.


Nyusi defendeu, por isso, que a participação de Moçambique no Conselho de Segurança deve ser avaliada, não apenas em termos de benefícios imediatos, mas também pela capacidade de o País promover a paz, a estabilidade e a segurança, tanto ao nível regional como internacional.

Influência no Conselho de Segurança


Sobre a influência de Moçambique no Conselho de Segurança, Nyusi considerou que nenhum país, incluindo as grandes potências, consegue impor resultados absolutos num órgão onde diferentes interesses e posições são colocados à mesa.


“Não existe, em nenhuma parte, uma influência para ter resultados absolutos, porque nem os grandes conseguem ter”, afirmou.

Para Nyusi, o Conselho de Segurança é essencialmente um palco de debate onde as diferentes posições dos Estados se confrontam e onde as decisões são, muitas vezes, determinadas pelos interesses de cada país. Apesar das limitações, defendeu que a influência deve ser exercida de forma persistente.


“Eu preciso de deixar a gota bater a pedra, bater a pedra, bater a pedra, até qualquer dia, mas a influência lá está”, afirmou.

Combate ao Terrorismo


Questionado sobre a razão pela qual Moçambique optou por aprofundar a cooperação com o Ruanda no combate ao terrorismo, em vez de privilegiar a Tanzânia, Nyusi explicou que, no início dos ataques terroristas em Cabo Delgado, o País recebeu várias ofertas de apoio internacional.


Segundo o antigo Presidente, muitas dessas ofertas estavam relacionadas com formação e partilha de informações de inteligência. No entanto, perante o agravamento da situação, Moçambique precisava de respostas rápidas e concretas.


Nyusi recordou que, entre 2018 e 2019, a situação se agravou a ponto de várias vilas terem sido tomadas pelos grupos terroristas, obrigando o Governo a tomar decisões consideradas necessárias para travar o avanço da insurgência.


“Quando alguém está a sangrar, é preciso estancar. Tínhamos de estancar”, afirmou, ao explicar a necessidade de uma resposta imediata à violência.


O antigo Chefe de Estado revelou que procurou apoio em vários países da região e fora dela, incluindo Tanzânia, Quénia, Uganda e Egipto, além de ter mobilizado os países da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC).


Nyusi esclareceu, entretanto, que a opção pelo Ruanda não significou o abandono da cooperação com a Tanzânia. Segundo afirmou, Moçambique mantém acordos bilaterais com aquele país, e a cooperação continua a funcionar.

“A Tanzânia está mais interessada também, porque é na fronteira”, explicou, destacando a importância estratégica da fronteira entre os dois países no contexto da circulação de pessoas e dos movimentos associados à insurgência.


O antigo Presidente rejeitou, por isso, a ideia de que Maputo tenha secundarizado a Tanzânia ou qualquer outro parceiro regional. Segundo afirmou, Moçambique mantém igualmente relações de cooperação com outros países da região.

Fonte: O País

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