Cabo Delgado: O alerta dramático da Missão da UE

  • Registados 154 ataques jihadistas em cinco meses, com a extorsão a ser a nova arma dos insurgentes;
  • Apesar dos esforços de formação, a EUMAM-MOZ expõe fragilidades estruturais e de comando das FADM perante nova vaga de ataque.

A Missão de Assistência Militar da União Europeia em Moçambique (EUMAM-MOZ) revelou, nesta terça-feira, em Maputo, que os grupos de insurgentes que operam no norte do país protagonizaram um total de 154 ataques nos últimos cinco meses, concentrando as suas acções em estratégias de rapto e posteriores cobranças de valores monetários em forma de resgate. Os sequestros, utilizados para obter resgates e recrutar novos membros, passaram de 29% dos ataques no primeiro semestre do ano para 56% no trimestre mais recente. A extorsão transformou-se numa nova arma dos insurgentes, perante fragilidades estruturais e de comando nas Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM), diante de uma nova vaga de ataques.

Os dados foram apresentados pelo brigadeirogeneral Sérgio Estrela, comandante da EUMAM-MOZ, durante uma palestra subordinada ao tema “Contributo da Missão de Assistência Militar da União Europeia para a Defesa e Segurança de Moçambique”, organizada pelo Centro de Análise Estratégica da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CAE/CPLP).


Segundo o responsável militar europeu, a situação de segurança no norte de Moçambique continua preocupante, sobretudo devido à capacidade de movimentação dos grupos terroristas, que têm conseguido realizar incursões em diferentes pontos de Cabo Delgado e estender a sua actividade a outras regiões. “Infelizmente, nestes últimos cinco meses, temos cerca de 154 ataques insurgentes”, revelou Sérgio Estrela, acrescentando que a violência continua concentrada em Cabo Delgado, embora já tenham sido registadas incursões para sul e oeste, incluindo um ataque isolado na província do Niassa.

De acordo com os dados apresentados, a actividade insurgente afectou 16 distritos, dos quais 15 em Cabo Delgado e um no Niassa. O comandante da missão europeia explicou que os ataques estão distribuídos por aproximadamente 120 localizações, situação que, na sua avaliação, demonstra que os grupos armados continuam a dispor de alguma liberdade de circulação.

Evitar confrontos directos


Uma das principais constatações apresentadas pela EUMAM-MOZ prendese com a mudança das tácticas utilizadas pelos insurgentes.

Segundo Sérgio Estrela, os grupos armados têm privilegiado ataques dispersos, procurando evitar concentrações que possam facilitar a resposta das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM). “Estamos a falar de cerca de 120 localizações. O que é que isto implica? Implica que eles têm alguma liberdade de movimento e uma preferência por evitar concentrações, ou seja, evitam o contacto directo com as Forças Armadas de Defesa de Moçambique”, explicou.

Esta estratégia permite aos insurgentes movimentarem-se por diferentes zonas, dificultando a sua localização e o desencadeamento de operações militares contra as suas posições. Para o brigadeiro-general, esta realidade exige uma resposta capaz de impedir que a violência se agrave ou se estenda para outras regiões do país. “É sobre isto que nós temos que ajudar Moçambique, a evitar que esta situação se agrave ou se alastre”, afirmou.


Analistas militares independentes anotam que as forças de reacção treinadas pela Missão da UE deviam ser unidades móveis, capazes de receber informações de inteligência, deslocar-se rapidamente, atacar e retirar-se. Mas o que acontece é que estas unidades especializadas permaneceram em posições estáticas durante meses, desempenhando funções típicas de forças normais de manutenção das posições conquistadas. “As forças de reacção rápida deveriam permanecer em operações por períodos limitados, retornando em seguida para descanso, reabastecimento e novo treino”, anotam os mesmos observadores.

Raptos passam a representar 56% dos ataques

Outra tendência considerada preocupante pela missão europeia é o aumento significativo dos raptos protagonizados pelos grupos terroristas.

Segundo os dados apresentados, os dos ataques no primeiro semestre, passaram a corresponder a 56% no período mais recente analisado.


O comandante da EUMAM-MOZ explicou que esta modalidade tem sido utilizada pelos insurgentes como mecanismo de financiamento e recrutamento. “O rapto tornou-se a principal modalidade, infelizmente. Passou de 29% dos ataques no primeiro semestre para 56% neste último trimestre”, revelou.


A 3 de Setembro passado, um ataque terrorista atingiu uma coutada orada pela Mozambique Wild Adventures (MWA), ligada ao luso-moçambicano Carlos Queirós, no posto administrativo de Marangira, no distrito de Marrupa, província do Niassa.

No ataque, os insurgentes incendiaram o acampamento e destruíram, na localidade com o mesmo nome, um posto policial, um centro de saúde e uma igreja cristã, para além de atearem fogo a dois veículos de um residente local. Três trabalhadores que haviam sido raptados foram libertados a 4 de Outubro, após o pagamento de um resgate avaliado em 3,4 milhões de meticais.


Um total de sete crianças capturadas na mesma incursão continua nas mãos dos insurgentes, onde estarão a ser doutrinadas em ensinamentos islâmicos, segundo explicações de pessoas que partilharam o cativeiro.

De acordo com Sérgio Estrela, os sequestros podem servir para obter recursos financeiros através de extorsão, mas também para alimentar as fileiras dos grupos terroristas mediante o recrutamento de pessoas.


A mudança de estratégia evidencia uma transformação na dinâmica da violência em Cabo Delgado, onde os insurgentes procuram manter a sua capacidade de actuação sem necessariamente enfrentar directamente as forças governamentais.

Fonte: Jornal Savana

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