Muito ouvimos falar do projecto Chapa 100 e ficámos curiosos. Metemo nos, então, à estrada e fomos conhecer o local no Bairro Habel Jafar, no município de Marracuene, província de Maputo.
É praticamente impossível lá chegar sem se pôr a discutir sobre as dinâmicas urbanas. O espaço situa-se ao longo da Avenida Dom Alexandre, uma via que há muito clama por intervenções, de tão “abatida” ao ponto de tornar a viagem meio penosa e o destino mais distante.
Os solavancos e a poeira causados pela via fizeram-nos admirar ainda mais o projecto e a coragem de o implementar fora da cidade de Maputo.
O nome Chapa 100 facilmente engana as pessoas, afinal quando se fala de chapa a nossa mente logo recorre ao transporte semicolectivo de passageiros. No entanto, este não é o caso.
O Chapa 100 de Habel Jafar é um centro cultural inspirado nas dinâmicas urbanas, sobretudo no meio de transporte que se popularizou a partir dos anos 1980.
Aqui, este termo, que habita no imaginário popular, é visto como um conceito culturalmente explorável. Jorge Matine, fundador e gestor do espaço, refere que o nome do centro cultural surge em homenagem aos moçambicanos que encontram neste transporte um elemento agregador e de unidade, sobretudo no circuito urbano.
“É o que mais nos une. É um símbolo. Toda a gente, independentemente da sua classe social, da forma como nasceu ou do seu trabalho, cruza se com o Chapa 100”, explica Matine, referindo que este transporte representa a maioria dos moçambicanos, incluindo aqueles que não dependem dele para se deslocarem.
“Mesmo as pessoas com carro próprio sabem que a sua empregada, ama, jardineiro, entre outros, vêm de chapa. Então, mesmo aqueles que estão distantes dessa realidade se identificam.
E uma das coisas mais importantes do Chapa 100 é ter conseguido quebrar essa realidade da exclusão social”, comentou. Olhando para estas viaturas como um espaço onde se cruzam identidades e lugares, Matine conta que também cresceu no Chapa 100.
Antes de se mudar para Habel Jafar, onde habita e instalou o centro cultural, vivia a realidade dos chapas enquanto residente do Chamanculo. Foi neste bairro da capital moçambicana onde começou a apropriar-se do Chapa 100 como um conceito indispensável para pensar a Maputo pós-moderna.
Fonte: Jornal Notícias