Quelimane foi quebrada por tiros que calaram não apenas um homem, mas uma voz pastoral da Igreja Católica em Moçambique. Dom Osório Citora Afonso, Bispo da Diocese de Quelimane e Administrador Apostólico da Beira, foi assassinado no interior do Paço Episcopal, num ataque violento ainda sem autores identificados.
O crime, cometido com recurso a arma de fogo, abalou profundamente a comunidade cristã e o País, tendo as mais altas entidades do Estado, da Igreja e da comunidade internacional reagido com consternação e exigem justiça.
Entretanto, Moçambique revela-se um Estado cada vez mais inseguro, onde para além de assassinatos a políticos, críticos, homens de Deus, os próprios polícias são eliminados. Silvino Miranda A Igreja Católica, ao longo de décadas no País, tem desempenhado um papel central em momentos críticos da história de Moçambique desde o período pós-Independência até aos processos de paz e reconciliação, assumindo frequentemente uma posição de ponte entre comunidades, Estado e Sociedade Civil.
O assassinato de Dom Osório ocorre num momento em que a Igreja em Moçambique ainda se encontrava a consolidar processos internos de reorganização pastoral nas dioceses, incluindo em Quelimane. Este não é um episódio isolado na memória colectiva do País no que diz respeito a ataques ou mortes violentas envolvendo homens de fé. Em 2024, o Padre Fernão Magalhães Raúl foi encontrado morto na sua residência, na cidade de Nampula.
O Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC), através do porta voz na Zambézia, Máximo Amílcar, disse que o prelado foi atingido mortalmente por um disparo de arma de fogo do tipo AKM no peito, alegadamente a curta distância. O corpo foi encontrado no corredor.
As autoridades indicam que os autores do crime terão violado a cerca eléctrica do Paço Episcopal antes de se introduzirem no interior do recinto para executar o ataque. Até o momento, não há suspeitos detidos. Máximo Amílcar afirmou que as investigações decorrem com o auxílio de peritos.
Aliás, Amílcar disse à imprensa que havia segurança no local, mas escusou-se a avançar pormenores sobre eventuais responsabilidades ou medidas tomadas em relação aos guardas e outros colaboradores presentes na residência. Por meio de uma mensagem divulgada no canal Telegram da Sala de Imprensa da Santa Sé, o Papa Leão XIV, líder da Igreja Católica, comunicou ao mundo a sua consternação pelo assassinato de Dom Osório Citora Afonso, Bispo de Quelimane e Administrador Apostólico de Beira.
Por sua vez, o Arcebispo da Arquidiocese de Maputo, Dom João Carlos Nunes, entende que a morte do Bispo de Quelimane é uma grande perda para a Igreja Católica. Diz que a Conferência Episcopal irá se pronunciar assim que forem esclarecidas as circunstâncias.
O Arcebispo de Maputo recordou o legado do prelado, destacando a sua dedicação à missão evangelizadora, a experiência pastoral e a visão universal da Igreja que procurava transmitir. Segundo Dom João Carlos, a morte de Dom Osório foi recebida com surpresa e tristeza.
O Arcebispo recordou que teve o privilégio de trabalhar com o falecido Bispo durante o período em que este serviu como Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Maputo. “Nós acreditamos que, acima de tudo, Deus é Pai e o Senhor é Deus. Vai saber consolar os corações que estão sentidos por esta terra. E a mensagem que temos, acima de tudo, é que não percamos a esperança.
É mais uma provação que nós passamos e que penso que, juntos, unidos, focalizados na nossa missão de evangelizar, acima de tudo, penso que isso ajudará a todos neste momento”, destacou. O Arcebispo lamentou que a missão de Dom Osório à frente da Diocese de Quelimane tenha sido interrompida prematuramente.
Segundo explicou, o Bispo encontrava-se ainda numa fase de reorganização e reestruturação da diocese, trabalho que ficou por concluir. Sobre o recente assassinato do Bispo de Quelimane, o Presidente da República (PR), Daniel Chapo, numa mensagem de condolências considerou que o desaparecimento físico do prelado representa uma perda irreparável para a sociedade moçambicana e para a comunidade cristã, destacando o seu legado de humildade, dedicação pastoral e promoção dos valores da paz e da reconciliação.
O passamento do Bispo Osório constitui uma perda irreparável para a sociedade moçambicana, em geral, e para a comunidade cristã, em particular”, refere a mensagem presidencial.
Partidos políticos condenam a morte do Bispo A Frelimo, através do seu porta-voz, Pedro Guiliche, manifestou profunda consternação, destacando o contributo do Bispo para a coesão social, o fortalecimento do diálogo inter-religioso e o seu papel na promoção da paz e da reconciliação nacional ao longo dos anos.
O partido sublinhou ainda que o prelado foi uma figura de referência moral, cuja actuação ultrapassou o campo religioso, tendo frequentemente apelado ao entendimento entre diferentes sensibilidades políticas e sociais no país. O PODEMOS, na voz do seu presidente, Albino Forquilha, condenou o acto de violência, manifestando solidariedade à Igreja Católica e à família enlutada.
Fonte: Magazine Indepedente