Economia Moçambicana cresce apenas 0,1% no i trimestre, penalizada pela queda de 21,6% na indústria extractiva

by Biston Gule

A economia moçambicana registou um crescimento real de apenas 0,1% no primeiro trimestre de 2026, quando comparada com igual período de 2025, segundo dados preliminares divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). O resultado confirma um arranque de ano praticamente estagnado, depois de a actividade económica ter apresentado forte recuperação no quarto trimestre de 2025, quando o PIB cresceu 5,1%. De acordo com a Nota de Imprensa sobre as Contas Nacionais Trimestrais, o Produto Interno Bruto a preços de mercado manteve-se em terreno positivo, mas com margem mínima, reflectindo uma economia ainda marcada por fortes assimetrias sectoriais.

Os serviços e parte da indústria compensaram, apenas parcialmente, o desempenho negativo do sector primário, sobretudo da indústria extractiva, que voltou a exercer pressão significativa sobre o crescimento agregado. A publicação completa das Contas Nacionais de Moçambique, referente ao I Trimestre de 2026, mostra que o crescimento económico foi sustentado sobretudo pelo sector terciário, com variação positiva de 3,5%, seguido pelo sector secundário, que avançou 3,2%. Em sentido contrário, o sector primário recuou 4,8%, condicionado pela queda expressiva da indústria extractiva. Serviços evitam um resultado mais fraco o sector terciário foi o principal amortecedor da economia no período em análise.

Segundo o INE, os ramos de Hotéis e Restaurantes cresceram 5,1%, Comércio e Serviços de Reparação avançaram 4,5%, Transportes, Armazenagem, Actividades Auxiliares dos Transportes, Informação e Comunicações cresceram 3,9%, enquanto os Serviços Financeiros registaram uma variação positiva de 3,1%. Este desempenho sugere alguma recuperação da actividade ligada ao consumo, mobilidade, comércio e serviços urbanos, segmentos particularmente sensíveis à confiança das famílias, à circulação de mercadorias e à normalização das actividades económicas. Ainda assim, a dimensão do crescimento do sector terciário não foi suficiente para elevar de forma robusta o PIB, dada a magnitude da queda registada na indústria extractiva.

A estrutura do PIB confirma a relevância dos serviços na economia, mas também evidencia a persistência de uma base produtiva ainda fortemente dependente de poucos sectores. No I Trimestre de 2026, Transportes, Armazenagem, Actividades Auxiliares dos Transportes, Informação e Comunicações representaram 8,6% do PIB, enquanto Comércio e Serviços de Reparação tiveram peso de 7,0%. Indústria extractiva arrasta o sector primário O dado mais crítico do trimestre veio da indústria extractiva, que registou uma variação negativa de 21,6%. Esta queda foi determinante para a contracção de 4,8% do sector primário, apesar de a Agricultura, Pecuária, Caça, Silvicultura, Exploração Florestal e Actividades relacionadas terem crescido 2,2% e a Pesca avançado 0,9%.

A magnitude da quebra na indústria extractiva é particularmente relevante porque este ramo representa 10,5% do PIB, sendo o segundo maior peso individual na estrutura económica depois da agricultura. Em termos de contribuição para o crescimento, os quadros da publicação do INE indicam que a indústria extractiva retirou 2,9 pontos percentuais ao crescimento do PIB no trimestre, anulando grande parte dos ganhos obtidos por outros sectores. A agricultura manteve-se como o maior ramo de actividade da economia, com peso de 32,2% no PIB. Este dado reforça a importância estrutural do sector agro-pecuário, não apenas como fonte de produção, mas também como base de rendimento das  famílias e de sustentação da procura interna.

Contudo, o crescimento de 2,2% da agricultura foi insuficiente para neutralizar o impacto negativo da mineração. Electricidade E Indústria transformadora sustentam o secundário O sector secundário cresceu 3,2%, impulsionado principalmente pelo ramo de Electricidade, Gás e Distribuição de Água, que registou uma expansão de 6,8%. A indústria transformadora cresceu 2,2% e a construção avançou 2,0%. Embora positivos, estes resultados ainda apontam para uma recuperação moderada da capacidade produtiva. A indústria transformadora, que representa 5,9% do PIB, mantém um peso relativamente reduzido face à dimensão da agricultura e da indústria extractiva, o que limita o seu efeito de arrastamento sobre o crescimento agregado.

A evolução positiva da electricidade e água sugere uma melhoria em infra-estruturas essenciais à actividade económica, mas a expansão da construção, de apenas 2,0%, revela que o investimento produtivo e imobiliário continua condicionado por um ambiente económico ainda cauteloso. Consumo cresce, mas investimento afunda Pela óptica da despesa, o dado mais expressivo foi o forte crescimento do consumo final, que aumentou 12,9% no I Trimestre de 2026 face ao mesmo período de 2025. O consumo privado, componente de maior peso na procura interna e no PIB, cresceu 15,2%, enquanto o consumo público avançou 5,5%.

Este dinamismo do consumo ajudou a sustentar a actividade económica, sobretudo nos ramos de comércio, serviços, hotéis, restauração, transportes e comunicações. No entanto, o crescimento do consumo contrasta com a forte quebra da formação bruta de capital, que caiu 39,1%, sinalizando uma redução expressiva do investimento. A queda do investimento é um dos sinais mais preocupantes do trimestre. Num contexto em que a economia precisa de acelerar a diversificação produtiva, criar emprego e reforçar infra-estruturas, uma contracção desta magnitude na formação de capital limita a capacidade de crescimento futuro e fragiliza a recuperação económica.

Exportações recuam e comércio externo perde dinamismo O desempenho externo também foi negativo. Segundo o INE, as exportações caíram 7,8% no I Trimestre de 2026, pressionadas sobretudo pela redução de 15,6% nas exportações de bens. As exportações de serviços, em contrapartida, cresceram 42,3%, mas a sua expansão não foi suficiente para compensar a quebra dos bens. As importações recuaram 4,8%, com queda de 2,6% nos bens e de 12,9% nos serviços. A redução das importações pode reflectir menor procura por bens de capital, matérias-primas ou serviços associados à actividade produtiva, o que deve ser lido em conjunto com a forte queda da formação bruta de capital.

Fonte: O económico

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