Moçambique está a tentar responder às fragilidades expostas pelas recentes cheias, secas e ciclones através de uma dupla frente: assegurar sementes de qualidade para a próxima campanha agrária e promover sistemas de produção mais resilientes, capazes de conciliar produtividade, conservação dos recursos naturais e adaptação às alterações climáticas. Na abertura da Reunião Nacional de Sementes, em Maputo, o Ministro da Agricultura, Ambiente e Pescas, Roberto Albino, anunciou a disponibilização de 75 milhões de dólares para financiar a aquisição de sementes certificadas durante a campanha agrária 2026/27. A medida deverá concentrar-se em culturas alimentares estratégicas, nomeadamente milho, arroz e feijão, com a intenção de garantir procura regular, estimular o aumento da produção nacional e dar maior previsibilidade ao investimento privado no sector.
A dimensão da decisão está directamente relacionada com uma vulnerabilidade que se tornou evidente durante a resposta às cheias deste ano. Segundo o ministro, apesar de existirem recursos financeiros para a aquisição de sementes, o mercado nacional não dispunha de volumes suficientes para responder à procura de emergência, levando o País a importar cerca de 80% das sementes distribuídas nesse contexto. O problema, portanto, não se resume à disponibilidade de financiamento. Está também ligado à capacidade produtiva nacional, à qualidade da semente, à organização da procura, à previsibilidade dos contratos e à capacidade de resposta do sector privado perante eventos climáticos cada vez mais severos.
Do Apoio De Emergência À Construção De Um Mercado Nacional O compromisso de disponibilizar fundos destinados especificamente à compra de sementes procura corrigir uma das principais limitações do sector: a ausência de um mercado suficientemente previsível para induzir produtores e empresas a aumentarem a sua capacidade. A mensagem deixada pelo Governo é a de que os recursos financeiros deverão constituir uma garantia efectiva de procura, permitindo aos operadores planear produção, investir em multiplicação de sementes e ampliar a oferta de variedades adaptadas às diferentes realidades agro-ecológicas do País.
Roberto Albino apelou, por isso, ao sector privado para expandir a produção nacional, sustentando que a previsibilidade deverá ser assegurada num horizonte que se estende até 2030. A perspectiva é relevante porque a importação pode responder a uma emergência pontual, mas não substitui a construção de uma indústria nacional de sementes. Uma cadeia local robusta reduz tempos de resposta, cria oportunidades empresariais, diminui a exposição a restrições externas de oferta e permite desenvolver variedades mais ajustadas às condições de solo, clima e produção das diferentes regiões moçambicanas.
Fonte: O económico