O académico Severino Ngoenha denunciou e criticou, na manhã desta quinta-feira, na cidade de Maputo, o confinamento e concentração do exercício político aos processos eleitorais, colocando a importância de ganhar eleições como ponto de partida e de chegada de toda a sua actividade. Fora isso, Ngoenha, um dos mais críticos académicos da actualidade, apontou dedo, igualmente, ao que já vem se verificando e se denunciando há algum tempo: a tentativa de busca de legitimidade no exterior e longe das comunidades locais, aquelas que efectivamente fazem filas para o exercício democrático de votar nos candidatos preferenciais em momentos eleitorais. O académico, actualmente a exercer o cargo de reitor da Universidade Técnica de Moçambique, entende que se está inclusive numa situação em que os políticos consolidam a ideia de que a sua missão principal é o processo eleitoral, e não necessariamente o trabalho para a construção do que se considera “bem comum”.
“As eleições são importantes no quadro político nacional, mas são um momento, não são o objectivo final da política. A política é vivermos juntos e juntos como construirmos o bem comum de todos” – apontou, criticando o facto de maior parte das actuais actividades políticas irem no sentido de se garantir que em 2028 [ano eleitoral] tudo esteja preparado para conquistar o poder para quem está fora e para se manter no poder para quem está actualmente a governar. Infelizmente, esta cultura política tem, na perspectiva de Ngoenha, capacidade de corromper todo o resto, daí a actual fragmentação do tecido social moçambicano. “Uns prepararam-se para ganhar a todo o custo, outros prepararam-se para, se os resultados lhes forem favoráveis, como garantir transparência a todo o custo” – referiu, falando na abertura da conferência intitulada “arquitectura de paz em Moçambique”, evento que, organizado conjuntamente pelo Centro para Democracia e Direitos Humanos, da Propaz e do Instituto para a Democracia Multipartidária, termina esta sexta-feira.
Dentre vários pontos colocados, Ngoenha também colocou dedo na ferida em relação à forma como os políticos, particularmente no poder e de forma específica o Presidente da República, Daniel Chapo, tentam buscar legitimidade de fora das fronteiras nacionais e longe das comunidades moçambicanas. Esta cultura de tentar buscar legitimidade no estrangeiro está, igualmente, em alguns momentos, a ser vista como estratégia da oposição política nacional. “Uma maior busca de legitimidade política não na comunidade internacional, não em viagens ao exterior, mas um diálogo permanente no interior do nosso país é condição sine qua non para que possamos criar caminhos de paz” – censurou Ngoenha, especificando que “nós estamos a buscar, governo e oposição, legitimidade no exterior e não estamos a falar o suficiente”.
Outra preocupação partilhada pelo académico tem a ver com a consolidação da ideia de medo que paira em muitos governantes e pessoas abastadas e ricas porque, segundo confidenciaram a Severino Ngoenha, pensam que serão vítimas de pretensas perseguições. “Eu estava a falar com alguém num desses dias e ele diz-me assim: professor, vocês podem pedir qualquer coisa, mas nós os ricos de Moçambique não vos podemos permitir toda a transparência que vocês pedem porque não teríamos como justificar a nossa riqueza” – partilhou o académico, que pediu e implorou para a necessidade de se ultrapassar esta ideia porque, a prevalecer, o país continuará num círculo vicioso e a promover debates que nunca tocam as questões essenciais sobre como os problemas do país devem ser resolvidos. Para este, é importante que haja coragem de meter o dedo naquilo que é razão fundamental dos “nossos conflitos”, pois, caso contrário, “não estaríamos a resolver os nossos problemas”.
Fonte: Mediafax