Zandamela cessa em Setembro e já há movimentações nos bastidores: Quem senta na cadeira do Xerife?

O actual governador do Banco de Moçambique (BdM), Rogério Zandamela, termina a sua tumultuosa administração em Setembro próximo, o que já está a ser objecto de movimentações e nervosismo nos círculos reservados, no exercício de busca de um sucessor. Ao que o Savana apurou, os economistas Clara de Sousa, José Sulemane e Tomaz Salomão estão numa lista como putativos substitutos de Zandamela. Os dois primeiros confirmaram, a fontes próximas do Jornal, que houve contactos há algum tempo, mas descartaram essa possibilidade. O economista veterano é olhado como ligado “ao tempo que passou”. Após 28 anos como funcionário do Fundo Monetário Internacional (FMI), Rogério Lucas Zandamela foi nomeado governador do BdM em Agosto de 2016 pelo presidente Filipe Nyusi, estando actualmente a cumprir o segundo mandato que termina em Setembro. Segundo a Lei orgânica (1/92, de 3 de Janeiro) do BdM, no seu número 3 do artigo 45, os administradores do BdM exercem as suas funções por períodos renováveis de cinco anos. Isto significa, segundo um jurista consultado pelo Savana, que formalmente não há limitação de mandatos. Ou seja, Zandamela pode ser reconduzido. Mas nos círculos do lobby político/financeiro há uma grande pressão para se afastar Zandamela, que ganhou o apelido de “xerife” pela sua tendência enérgica e com tiques de atirar primeiro e perguntar depois.

O governador e vice-governador “são nomeados, exonerados e demitidos pelo presidente da República, nos termos da Constituição da República”. Mas ao que o Savana apurou, parte da equipa de Chapo, sobretudo o seu principal núcleo, é favorável à não renovação do mandato de Zandamela. Aliás, queriam-no fora mal se iniciou o ciclo Chapo. Os pecados de Zandamela Zandamela chegou ao BdM quatro meses após a descoberta do escândalo das chamadas “dívidas ocultas”, uma nomeação apadrinhada pelo seu antigo colega de faculdade Carlos Agostinho do Rosário e também sob pressão do FMI, que em Abril de 2016 suspendeu o programa de cooperação do país. Na sequência, Moçambique caiu na categoria de “lixo” nas praças financeiras internacionais devido às dívidas ocultas contratadas ao arrepio das normas pela administração Guebuza. Porém, anos depois da sua nomeação, Zandamela foi objecto de várias críticas e a sua reputação vem caindo a pique. O actual governador do BdM foi alvo de críticas pela sua intervenção no Moza Banco, devido ao conflito de interesses.

Zandamela terá usado a sua posição regulatória como governador do Banco Central para tomar uma decisão que beneficiou a Kuhanha, o fundo de pensões do BdM, cujo conselho ele também me presidia. A sua intervenção “destruiu” o principal Banco com capitais moçambicanos, embora na altura houvesse a suspeição que aquela instituição bancária albergava também os interesses de alguns generais angolanos da área do MPLA, o partido no poder em Luanda. A sua relação ríspida com o sistema financeiro, sobretudo os bancos comerciais, tem vindo a deteriorar-se a olhos vistos. Indicou inspectores residentes em vários importantes bancos comerciais da praça para controlá-los de dentro. Zandamela é “odiado” por muitos banqueiros, por causa de sua postura autoritária e interferência, aparentemente grosseira, nas instituições bancárias que deveria regular.

Igualmente, a postura, aparentemente, independente e agressiva estará a dificultar o questionamento de sua política monetária rigorosa, o que, segundo analistas, estará a prejudicar avanços no crescimento económico ao limitar o acesso ao crédito à economia. Embora Zandamela tenha feito algumas coisas boas para o sistema financeiro moçambicano, como melhorar a disciplina regulatória, o seu estilo agressivo e sua política monetária rigorosa não lhe renderam simpatia. O sector do “nacionalismo oportunista” aparece amiúde a apoiálo porque promove a “inclusão” de moçambicanos nos bem remunerados cargos nos conselhos de administração e mantém uma guerra aberta com executivos estrangeiros, sobretudo os que representam os interesses da banca portuguesa. Zandamela é também criticado na sua relação com a Assembleia da República. Em 2023, Zandamela terá se recusado a participar de uma audição na Assembleia da República, uma reunião promovida por duas comissões parlamentares em torno da proposta da criação do Fundo Soberano. Mandou um seu representante, sem a documentação solicitada.

A acção levou os deputados a protestarem com veemência. Recentemente, o BdM e os seus administradores foram alvos de críticas devido aos elevados salários que auferem. Números nunca explicados pelo Banco mostram que o Conselho de Administração custou, em 2025, cerca de 300,9 milhões de meticais em remunerações anuais, o que equivale a um rendimento médio mensal de cerca de 2,7 milhões de meticais para cada um deles. Óscar Monteiro, um histórico da Frelimo com largos e diversificados rendimentos, condenou as remunerações luxuosas, descrevendo a situação como um “novo roubo ao Estado”, que se manifesta através de relatórios e benefícios “legais”. Os mesmos sectores do “nacionalismo económico” apoiam a sua postura inflexível em relação à gestão administrativa da taxa de câmbio, que se mantém artificialmente estável há anos. Essa posição é contrariada por exportadores e investidores que concordam com a posição do FMI para que o metical seja desvalorizado, permitindo que a taxa de câmbio oficial do dólar suba de acordo com as regras do mercado.

Analistas, como Joseph Hanlon, apoiam a pressão do FMI, argumentando que a taxa oficial mantida artificialmente barata (em torno de 64 meticais) destrói e mpregos ao estimular importações em massa e prejudica a produção agrícola local. No último controverso episódio, Zandamela é alinhado com o pagamento de USD 701 milhões ao FMI, desalinhado com a opinião contrária da ministra das Finanças Carla Louveira. No final do primeiro mandato, apurou o Savana, um grupo de proeminentes economistas moçambicanos pediu a Nyusi que não renovasse o mandato do governador, mas Nyusi manteve-o no posto. Putativos sucessores É neste contexto, e com o término do segundo mandato de Zandamela, ao virar da esquina, que começam a posicionar-se interesses para substituir o actual governador do BdM. Em vários sectores surgem nomes como dos economistas José Sulemane, Clara de Sousa e Tomaz Salomão, um veterano nas lides da economia moçambicana e actual membro da Comissão Política da Frelimo, o verdadeiro órgão decisor das políticas em Moçambique. Salomão, nos últimos anos, tem-se mostrado solícito para ocupar altos cargos governamentais, mas sem qualquer sucesso.

Antes de ingressar de forma permanente no FMI, Sulemane foi director Nacional do Plano e Orçamento no Ministério do Plano e Finanças (MPF). Ao que o Savana apurou, Sulemane, um dos elementos da “Geração 8 de Março”, tem apoios nos círculos associados ao sistema financeiro moçambicano e é apadrinhado nos sectores afectos a um antigo governador do BdM na administração Samora Machel. Mas o jornal sabe que ele tem descartado liminarmente tal possibilidade. Ele regressou recentemente ao país na condição de reformado do FMI. Sulemane representou o FMI no Kosovo, como chefe e representante residente, e, mais tarde, na Guiné-Conacri. Mais tarde, regressou aos escritórios centrais em Washington, onde também integrou as equipas do FMI responsáveis pelas avaliações financeiras em Cabo Verde. Ele é também professor universitário com várias obras publicadas.

Clara de Sousa Seria a primeira mulher na história de Moçambique a ocupar o cargo de governadora do Banco Central, onde já chegou a administradora, antes de ingressar no Banco Mundial, onde também já assumiu a liderança como gestora para Angola e São Tomé e Príncipe, e economista sénior para o Mali. Em Moçambique, Clara de Sousa construiu uma sólida carreira na área económica/financeira. Da mesma geração de Sulemane, ela foi também professora na Faculdade de Economia da Universidade Eduardo Mondlane (UEM). É esposa de João Mário Salomão, um antigo ministro das Obras Públicas. Recentemente, Clara de Sousa defendeu, em Maputo, a necessidade de Moçambique reforçar as reformas económicas, mobilizar mais recursos internos e reduzir a dependência da ajuda externa para impulsar um desenvolvimento económico sustentável e inclusivo. Esta posição foi apresentada durante uma aula aberta promovida pela Universidade Pedagógica de Maputo (UP), subordinada ao tema “Financiamento ao Desenvolvimento e Reformas Económicas: Experiências Internacionais e Reflexões para Moçambique”.

Na aula aberta, a economista defendeu também que o país precisa de mobilizar financiamento de forma estratégica para sectores como Infra-estruturas, saúde, educação, resiliência climática, protecção social, formalização das empresas e modernização da administração fiscal. O jornal sabe que ela recusou por variadas vezes a “sugestão” para ocupar a cadeira de governador, numa casa onde também já trabalhou. Tomaz Salomão Nascido a 16 de Outubro de 1954, em Inhambane, Tomaz Salomão foi formado na UEM e possui uma pós-graduação na Johns Hopkins, uma universidade conservadora nos Estados Unidos por onde também passou Rogério Zandamela, em 1987. Em alguns sectores, acredita-se que Tomaz Salomão poderá mostrar uma outra face do Banco Central, supostamente enviesada na era Rogério Zandamela. Mas os Jovens e Influentes na actual Frelimo não dão qualquer chance a Salomão.

Tomaz Salomão ocupou importantes pastas no governo moçambicano em períodos cruciais de reconstrução económica. Foi secretário de Estado da Defesa antes de ser ministro do Plano e Finanças (1994–2000) e ministro dos Transportes e Comunicações (2000– 2005). Exerceu também o cargo de secretário executivo da SADC entre 2005 e 2013. Tem igualmente passagens pela banca comercial. Foi PCA do Standard Bank Moçambique por cerca de 18 anos. Igual posição assumiu nas Cervejas de Moçambique (CDM) e esteve em vários outros conselhos de administração como é tradicional entre os membros seniores da Frelimo. Antes de chegar aos cargos governamentais, Tomaz Salomão foi, entre 1975–77, membro do Conselho de Administração (CA) da Caixa Económica de Moçambique. Já entre 1977–78 foi membro do CA do Banco Popular de Desenvolvimento (BPD).

Outro nome veiculado para o cargo é o do antigo ministro da administração Nyusi, Max Tonela, mas, no seu círculo de amigos e confidentes, segundo apurou o jornal, esta possibilidade é liminarmente afastada, pois ele prefere a sua actividade privada como consultor internacional. Dentro do BdM, avança-se com a ideia de que Zandamela é a favor de “uma solução caseira”, nomeadamente uma escolha entre um dos três membros do actual Conselho de Administração. Se Chapo decidir mexer na sua equipa económica a breve trecho, aventase também a possibilidade de uma “dança de cadeiras” para preencher a vaga que pode ficar aberta com a saída de cena do governador Zandamela.

Fonte: Jornal Savana

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