O filósofo e académico Severino Ngoenha advertiu que Moçambique corre o risco de voltar a mergulhar num novo ciclo de conflito político-eleitoral, por considerar que a classe política desviou o foco das causas que estiveram na origem da recente crise social para se concentrar quase exclusivamente nas eleições de 2028. O alerta foi lançado na sexta-feira (24), durante o primeiro dia da Conferência sobre Arquitectura da Paz, promovida pelo Instituto para a Democracia Multipartidária (IMD), em parceria com o Centro para Democracia e Desenvolvimento (CDD), na cidade de Maputo. Na sua intervenção, Ngoenha defendeu que a história de Moçambique foi construída sobre sucessivos conflitos e não sobre uma base sólida de paz. Na sua perspectiva, a própria moçambicanidade assenta numa trajectória marcada pela confrontação, o que torna o país particularmente vulnerável ao ressurgimento da violência. “A nossa história, nos últimos 50 anos, aquilo que chamamos moçambicanidade, não repousa sobre um substrato sólido de paz, mas de conflitos, de guerra e de oposição. Isso significa que, a qualquer momento, ventos de conflito podem abalar o edifício sobre o qual assenta a República de Moçambique”, afirmou.
Apesar desse passado, o académico entende que, após as manifestações, o País teve uma oportunidade histórica para reconstruir os alicerces da convivência nacional. Contudo, considera que essa possibilidade foi rapidamente desperdiçada, porque o debate político voltou a centrar-se quase exclusivamente na disputa pelo poder. Segundo Ngoenha, tanto os partidos que governam como os da oposição passaram a privilegiar a preparação das próximas eleições, deixando em segundo plano os factores que alimentaram o descontentamento popular. “Os resultados eleitorais foram a primeira razão do conflito. Depois surgiu uma manifestação de descontentamento generalizado sobre a forma como vivíamos em conjunto, sobretudo na maneira como os bens eram redistribuídos. Mas o foco principal dos partidos políticos, desde a Frelimo até à oposição, passou a ser as eleições de 2028”, observou. O filósofo esclareceu que não coloca em causa a importância das eleições numa democracia. Contudo, advertiu que estas representam apenas um momento da vida política e não podem substituir o debate sobre os problemas estruturais do país. “Não estou a dizer que as eleições não são importantes, mas elas são apenas um momento.
Estamos concentrados nas eleições e não estamos a procurar soluções para aquilo que faz com que as manifestações possam existir. Este encaminhamento é perigoso”, alertou. Ngoenha afirmou igualmente que, durante os seus encontros e debates realizados em diferentes pontos do País, encontrou sinais preocupantes de que muitos cidadãos já se preparam para uma nova confrontação. Segundo relatou, ouviu, em Maputo, na Beira e em Nampula, discursos de jovens que dizem estar dispostos a enfrentar as forças de segurança caso se repitam situações semelhantes às registadas nas últimas manifestações. “Num dos meus ateliers, em Maputo, um jovem levantou a mão e disse que, desta vez, não os vão encontrar despreparados; estão preparados para enfrentar a polícia ou quem vier. A mesma mensagem ouvi, de forma diferente, na Beira e em Nampula”, relatou.
Na sua análise, estes sinais revelam que o País está novamente a caminhar para um ambiente de confronto, alimentado tanto pela preparação das forças de segurança como pela crescente tensão política. “Tenho a impressão de que estamos a preparar-nos para uma nova luta. Estamos a comprar mais armas para o Exército e para a Polícia; nos bairros as pessoas preparam-se; os partidos da oposição lutam por maior transparência para chegarem ao poder. Tudo isto mostra que caminhamos para uma nova confrontação”, advertiu. Como alternativa, Ngoenha defendeu que a construção da paz exige uma mudança profunda na forma como os moçambicanos se relacionam e comunicam entre si. Recuperando a metáfora da arquitectura, sustentou que é necessário remover os obstáculos que impedem o diálogo entre governantes e governados e reconstruir a confiança entre os diferentes sectores da sociedade.
O académico defendeu igualmente um Estado mais transparente, capaz de gerir a riqueza pública de forma equitativa e sujeita ao escrutínio dos cidadãos. Na sua perspectiva, a violência não resulta apenas da pobreza, mas sobretudo da percepção de injustiça na distribuição dos recursos. Por isso, concluiu que Moçambique só poderá consolidar uma paz duradoura se substituir os alicerces de conflito por uma cultura assente na transparência, no diálogo e na redistribuição mais justa da riqueza nacional.
Fonte: Dossiers & Factos